
Saí...
Vesti-me de forma desleixada..
Calcei a percata..peguei a mochila vazia..a caixa de fósforos queimados..e saí...
Pedi para que a Solidão ficasse em casa..
E que com ela deixasse também a Amargura..e o Pranto..
Peguei minha Coragem de Vida..e então saí..
De vestes leves..partir rumo ao Acaso..
Deixei o vento soprar minha face..
E assim esperei que ele também preechesse o meu Vazio..
Paguei a barca..e tentei não sentar-me do lado Esquerdo..
Quis esquivar-me de qualquer lembrança do Tempo..
Esqueci-me que as direções foram todas tomadas pela Vivência..
E dessa forma não havia como fugir..
Abri minha bolsa vazia..e lá encontrei um velho caderno..
Folheei as páginas ligeiramente..e aos poucos fui encontrando mais vestígios..
Relatos de uma senda..
Ritos perdidos..
Confissões..
Lacei o caderno novamente na bolsa..
Tentei focar meu olhar no percursso do Rio..
Foi então que a Ausência fez-se mais que presente..o vácuo do lado meu..
Cerrei os olhos, e orei para que nenhuma lágrima escorresse..
Segui percusso rumo a um Shoping qualquer..
Um Templo de Nada..lotado de Vazios..
Com os óculos negros na face..
Forcei-me a ser forte..
Forcei-me parecer Rígido..Vivo..
Tracei o longo caminho..tentando não dar vazão ao sopro que me sufocava..
Fora o sufoco meu companheiro de percurso..
Fiz da respiração minha Prece..
Ao chegar no Ponto desejado..
Ergui o rosto, e tratei de esquecer da existência de todos que ali estavam..
Não havia lojas para visitar..nenhum encanto ou compulsão por Compras..
Partir para o meu refúgio..
Uma livraria de centro..
Um antigo ponto de encontro..
Fui reto e direto para a prateleira a qual sempre visitava..
Passei o mesmo olhar pelos livros a procura de algo que me encantasse..
Eram os mesmos livros de outras estações..todos como sempre empoeirados..
Fui então atingido por uma dor intensa..
Um flash de memória..alertava-me de que faltava algo..
Senti um mim um grito de agonia..
Um deja-vu de um abraço de carinho sempre dado..
Sempre naquela preteleira..
Sempre naquela mesma seção..
Vi em mente o sorriso ausente..
O resmungar das escondidas brincadeiras quase eróticas..
Senti em mim o correr lento das lágrimas..
Esquivei-me novamente da Dor..
Protegido mais uma vez pelas lentes escuras..
Pude esconder meus incansáveis olhos de lamento..
Fui em busca de qualquer leitura trágica..
Que combinasse com a dor que sentia ali..ontem..sempre..
E a cada chegada de um novo cliente..
Olhava eu rápido e furtivo..
Como um ser que espera alguém..
Como alguém que espera ser encontrado por um acaso..
Repetidas vezes olhei na ilusão de ser..
Não era ninguém além de jovens..
Não era..
Não seria..
Partir então para uma praça lotada de alimentação..
Sentei-me sozinho numa mesa de quatro lugares..
Quis ter várias sacolas pra preencher os lugares vagos..
Quis-me proteger de presenças alheias..
Se é para ser clérido da Ausência..
Que seja ausência plena..
Com o espírito ferido e vago..
Sonambulei pelos azulejos do Shoping até a saída..
Preparava-me novamente para mais um caminho..
Caminho de volta..
Volta ao nada..a reclusão..a ausência..
Encontrei vestígios dos Cigarros fumados no passado..
No mesmo banco hoje também vazio..
O cheiro de Cravo ainda presente..
A dor encravada pelo destino de assim Ser..
Sentei-me próximo ao rio..
Cultuei minha tristeza..
E reguei-o com meus pontos de lacrimais..
Retorno aos bancos do transporte..
Tendo o cuidado agora de escolher um assento único..
Não dual..
Vago pelo rio..
Escorro minha Dor..
Retorno a minha Torre de Marfim..
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